Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era! O balde
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.
Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.
Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!
O Balde
Toda nação tem seus símbolos. A França ostenta sua Torre Eiffel, os Estados Unidos se gabam da Estátua da Liberdade, e nós, no Brasil, temos o balde. Sim, o balde, esse objeto que deveria ser mero utensílio doméstico, mas que, em terra tupiniquim, ascendeu à condição de relíquia da miséria.
O balde, meu caro leitor, carrega mais do que água. Ele carrega séculos de desigualdade, de descaso, de humilhação que atravessa gerações. No sertão, na favela, no bairro esquecido pelas políticas públicas, ele é herança de um Brasil que insiste em não mudar. Enquanto uns desfrutam de piscinas climatizadas e torneiras que jorram feito cachoeiras, outros arrastam o balde para lá e para cá, em busca de um gole d’água ou de um lugar para despejar suas necessidades.
E não pense que essa sina é coisa do passado. Ainda hoje, quando a Constituição brada que todos têm direito à dignidade, há milhares de cidadãos que precisam se esgueirar no escuro, equilibrando um balde cheio de excrementos, porque o Estado se esqueceu deles. O esgoto é seletivo, meu caro. Só corre onde há dinheiro.
O balde também denuncia uma tensão que muitos insistem em ignorar. Repare bem: quem é que ainda carrega o balde? Quais mãos calejadas são as que o seguram? Qual pele ele marca, qual corpo ele desgasta? O balde, em sua singeleza de lata ou plástico, carrega o peso da escravidão que nunca se desfez por completo. O tempo passou, mas a cor das mãos que o carregam ainda é a mesma.
E enquanto alguns fazem de conta que não enxergam, outros fingem surpresa quando ouvem sobre a revolta dos que já não aguentam mais. Mas como se indignar contra o grito de quem passou a vida inteira dobrado sob o peso de um balde?
O balde, esse triste brasão da desigualdade nacional, ainda está lá. Nas vielas, nos barracos, nas casas de pau a pique. E enquanto ele existir, há muito a se dizer sobre o Brasil.
● Imagem: Meninos às margens de curso d'água na favela do Jacarezinho, no Rio (foto: Acervo COC/Fiocruz)
● Clique no link abaixo e ouça a música "Alagados" da banda Paralamas do Sucesso. A música ilustra a crônica.
https://youtu.be/o7N76QdXc6E?si=5cIPVp0_ETCE9DGx
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