Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio cono ele era: As lavadeiras do Castelo

 

Não é raro que, em tardes de lassidão, eu me veja a conversar com fotografias. Sim, leitor, com fotografias. Essas senhoras silenciosas e vaidosas que, embora sem fala, dizem muito mais que muitos homens. E que mais dizem quando são do Rio antigo, essa cidade que já foi menina com trança, senhora com sombrinha e agora desfila, em certos trechos, como viúva de si mesma.

Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.

Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.

Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!


As lavadeiras do Castelo

Corria o ano de 1921, e também corria o tempo final do desaparecimento do Morro do Castelo. A colina berço de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha os dias contados, como velho réu sem direito a defesa. O prefeito do Distrito Federal, Carlos Sampaio, esfregava as mãos com o entusiasmo de quem confunde vassoura com civilização. Decidira varrer o passado, convencido de que a memória atrapalha o trânsito do progresso.

Com o Morro iam abaixo igrejas, casas, colégio e hospital, essas antiguidades inconvenientes que insistem em lembrar que a cidade já viveu antes dos pavilhões. Mas o maior patrimônio, esse não cabia nos decretos: eram as pessoas. Entre elas, as lavadeiras do Castelo, mulheres que lavavam, lavavam e lavavam, como se o mundo fosse uma eterna mancha. Flores do tempo, delicadas e resistentes, ignoradas pelos engenheiros da pressa.

A administração Sampaio, herdeira do bisturi de Pereira Passos, assinou o decreto com fé quase religiosa na modernidade. Derrubava-se o morro para erguer o futuro, como se o Brasil precisasse apagar o berço para parecer adulto. A Exposição do Centenário da Independência pedia cenário, não história; palácios efêmeros no lugar de vidas permanentes.

E assim, entre entulhos e discursos, a cidade aprendeu a lição mais útil aos poderosos: é mais fácil demolir o passado do que conviver com ele. Ficaram as lavadeiras sem morro, mas com os braços inteiros, que é mais do que se pode dizer da memória oficial. Quando os pavilhões caírem, como tudo cai, ninguém se lembrará do prefeito, mas talvez reste na água do tempo o eco do tanque e do sabão.

Progresso que apaga é apenas esquecimento com farda nova, e o Rio, sempre irônico, sabe lavar as mãos dele no mesmo tanque. Se a cidade ganhou palácios, perdeu a alma; e alma, como sabem as lavadeiras, não se reconstrói com decretos, mas com memória, trabalho e dignidade cotidiana, que o progresso finge não ver quando passa apressado pela história. Assim se fez o futuro do passado um escombro e da ironia uma testemunha inconveniente e necessária sempre viva.


● Imagem: Augusto Malta. Rio de Janeiro, Praça do Morro do Castelo, 30/07/1921. Instituto Moreira Salles

● Clique no link abaixo e ouça a marchinha "Lata d'água" na voz da cantora Marlene. A música ilustra a crônica.

https://youtu.be/_nOs-4FhBak?si=kr0x-en0RrCYZ6zi


Nota: A marchinha carnavalesca “Lata d’água” foi composta pelo duo de autores Luís Antônio e Jota Júnior e lançada no Carnaval de 1952, sendo imortalizada na voz da cantora Marlene. 

A inspiração para a canção veio de Maria Mercedes Dantas, mais conhecida como Maria Lata D’Água, uma passista que se tornou figura emblemática do Carnaval carioca. Aos 18 anos, ela desfilou com uma lata de água de 20 litros equilibrada na cabeça, prática comum na época entre moradores das favelas do Rio de Janeiro que subiam morros carregando água por falta de saneamento básico. 

Maria nasceu em Diamantina (MG) em 1933 e mudou-se ainda criança para o Rio, onde viveu situação de rua e mais tarde ganhou destaque desfilando por décadas em várias escolas de samba cariocas. Sua imagem forte e cotidiana chamou a atenção dos compositores, que transformaram sua história em marcha carnavalesca. 

A música celebra tanto a figura de Maria quanto o cotidiano de muitas mulheres que carregavam água nas ladeiras, transformando um gesto simples em símbolo de resistência e alegria no Carnaval brasileiro.

Maria Mercedes faleceu no Rio de Janeiro aos 90 anos em 23 de fevereiro de 2024.


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