Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele é: A escada da promessa não cumprida
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.
Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.
Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!
A escada da promessa não cumprida
Vi o Morro da Providência como quem lê um documento antigo: com atenção, alguma culpa e certo constrangimento. Era 1966, mas o ano parecia insistir em repetir 1897, 1910, 1930 e todos os outros em que o Brasil prometeu e esqueceu. As escadas, protagonistas da cena, não levavam apenas às casas de madeira torta, mas a uma pedagogia nacional: sobe-se com esforço, desce-se com resignação.
As crianças, descamisadas, descalças e pipas lúdicas de alguma esperança, olhavam o cronista com a naturalidade de quem já viu tudo, inclusive o futuro curto. Não posavam; existiam. Os adultos, equilibrando latas, sacolas e esperanças, praticavam o velho esporte brasileiro do improviso, modalidade olímpica não reconhecida pelo Comitê Olímpico e muito menos pelo governo da ocasião, já então fardado de moral e silêncio.
Senti o desconforto próprio dos que descem do asfalto. Não era medo; era consciência. O Morro, primeiro a receber o nome de favela, lembrava ao país sua certidão de nascimento não assinada. Ali estavam em São Sebastião do Rio de Janeiro os herdeiros dos soldados de Canudos, desmobilizados da guerra e mobilizados para o esquecimento. Receberam balas, não casas; ordens, não direitos. Em troca, inventaram sobrevivência.
Vislumbrei, confesso, a ironia da história: enquanto a ditadura proclamava ordem, o Morro praticava vida. Enquanto se falava em progresso, aquelas casas ensinavam permanência. O samba, ainda ecoando nos becos, servia de crônica cantada do que não cabia nos discursos oficiais.
E pensei, com aquele sorriso amargo, que o Estado sobe o Morro apenas em época de eleição, calamidade ou repressão, sempre de botas pesadas e ouvidos leves. Nunca chega com a delicadeza de quem pede licença. Em 1966, o Morro já sabia: regimes passam, escadas ficam. E quem aprende a subir nelas aprende, sobretudo, a não esperar que alguém venha carregar seus próprios passos. A lição, afinal, era simples: resistir diariamente cansa menos que confiar.
Ao fim, percebi que não me observavam apenas; acusavam-me. O Morro da Providência, empoleirado sobre a cidade, parecia dizer: daqui vimos tudo, inclusive vocês. E seguimos aqui, apesar.
● Imagem: Morro da Providência, 1966. Agência O Globo.
● Clique no link abaixo e ouça a canção "Opinião" na voz da cantor e compositor Zé Ketti. A música ilustra a crônica.
https://youtu.be/aUp0PhdUaUc?si=febFqwt7riPiZaKW
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Muito obrigado, com apreço.



Muito bom! O Estado deveria cuidar das favelas com a mesma diligência que cuida dos privilegiados do "andar de cima".
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