Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era! A galinha do Catete


Não é raro que, em tardes de lassidão, eu me veja a conversar com fotografias. Sim, leitor, com fotografias. Essas senhoras silenciosas e vaidosas que, embora sem fala, dizem muito mais que muitos homens. E que mais dizem quando são do Rio antigo, essa cidade que já foi menina com trança, senhora com sombrinha e agora desfila, em certos trechos, como viúva de si mesma.

Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.

Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.

Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!


A galinha do Catete

Era o ano de 1925, e a República, coitada, cambaleava como um bêbado depois do baile. O Rio de Janeiro, sempre donairoso, misturava o perfume francês das damas da elite com o suor honesto do povo que sambava nas ladeiras. Noel Rosa, menino travesso, já transformava em verso o que os políticos tentavam esconder em decretos. E o Catete — ah, o Catete! — fervilhava de cavalheiros de paletós pretos, charutos acesos e consciências apagadas.

Fui convidado, não sei por que sorte (ou castigo), a uma cerimônia no Palácio. Disseram-me que o presidente Arthur Bernardes, representante dos mineiros, lá estaria, em meio a suas habituais tormentas políticas. A tal “política dos governadores”, esse pacto de cavalheiros que mais parecia um conluio de raposas, começava a ranger. Era o país, dizem, em marcha para o progresso — mas claudicando, como quem perdeu uma das muletas.

Desci do bonde e caminhei pela rua do Catete. O sol parecia zombar da humanidade. À frente, vi o Palácio cercado de automóveis reluzentes, oficiais de farda engomada e senhores de barriga inchada — não de virtude, mas de champanhe. Pensei comigo: “Eis aqui o coração da República.” Mas logo me corrigi: corações batem; aquilo ali apenas fumegava.

Foi então que a vi — a galinha. Uma criatura simples, de penas desgrenhadas, ciscando o chão bem em frente ao Palácio. Passava entre os sapatos lustrosos dos ministros, sem ser notada. Parecia procurar um grão de milho perdido entre as promessas políticas. Parei, hipnotizado.

Teria fugido da cozinha presidencial? Seria um presságio enviado pelos deuses da roça? Ou, quem sabe, uma metáfora viva do povo brasileiro — que, mesmo entre as raposas, insiste em ciscar o que resta da terra?

Enquanto refletia, um automóvel passou, quase atropelando a pobre criatura. A galinha correu, cacarejando, para o beco. E eu, tomado de súbita iluminação, pensei: “Ali vai o povo, fugindo do banquete do poder — não porque não queira comer, mas porque sempre é posto à mesa... como prato principal.”

Entrei no Palácio, respirei o fog dos charutos e sorri. Afinal, a República tinha suas aves de rapina — e suas galinhas sacrificiais.


● Imagem: Autor desconhecido. Rio de Janeiro, Cerimônia no Palácio do Catete em 1925. Instituto Moreira Salles

● Clique no link abaixo e ouça a música "Onde está a honestidade" na voz de Noel Rosa. A música ilustra a crônica.

https://youtu.be/5F6gfazcwAc?si=hcF4wPVJ_J3ct0NR


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Muito obrigado, com apreço.

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