Soft Balancing: A Arma Histórica da América Latina Contra Intervenções dos Estados Unidos
Introdução: poder, resistência e criatividade periférica
A história da América Latina, desde o século XIX, pode ser lida como um contínuo esforço de adaptação e resistência diante de assimetrias estruturais de poder. Se, no plano formal, os Estados latino-americanos conquistaram sua independência política ainda na primeira metade do oitocentos, no plano material, estratégico e econômico permaneceram inseridos em uma ordem internacional profundamente desigual. Ao longo do século XX, essa desigualdade assumiu contornos particularmente evidentes na relação com os Estados Unidos, potência hemisférica emergente desde a Doutrina Monroe (1823) e hegemônica após a Segunda Guerra Mundial.
Nesse contexto, a incapacidade material de enfrentar diretamente o poder militar, econômico e diplomático norte-americano levou os países latino-americanos a desenvolver estratégias indiretas de contenção, mitigação e constrangimento da hegemonia estadunidense. É nesse terreno que se insere o conceito de soft balancing — ou equilíbrio suave —, uma categoria analítica surgida no debate teórico das Relações Internacionais para explicar como Estados, especialmente médios e periféricos, buscam limitar o exercício do poder de uma potência dominante sem recorrer ao confronto militar direto.
Embora o conceito tenha sido originalmente formulado para analisar comportamentos de grandes potências diante da unipolaridade pós-Guerra Fria, sua aplicação ao contexto latino-americano revela uma longa tradição histórica de práticas que, mesmo sem nome teórico, já operavam segundo a lógica do equilíbrio suave: o uso do direito internacional, das instituições multilaterais, das coalizões diplomáticas, da integração regional e da retórica normativa como formas de contenção indireta da interferência externa.
Este texto busca demonstrar que o soft balancing não apenas é aplicável à América Latina, como constitui uma arma histórica recorrente utilizada pela região para enfrentar intervenções, pressões e assimetrias impostas pelos Estados Unidos. Para isso, o texto percorre quatro dimensões centrais: a construção teórica do conceito de soft balancing; o histórico das intervenções norte-americanas na América Latina; as estratégias latino-americanas de equilíbrio suave ao longo do século XX e XXI; e as implicações sociais, econômicas e conjunturais dessa prática no sistema internacional contemporâneo.
1. O conceito de soft balancing no debate das Relações Internacionais
O conceito de soft balancing emerge no início dos anos 2000, sobretudo a partir dos trabalhos de autores como Robert Pape, T. V. Paul e Stephen Walt, em resposta a um dilema teórico: por que, diante da supremacia incontestável dos Estados Unidos após o fim da Guerra Fria, não surgiram coalizões militares clássicas de contenção, como previsto pelas teorias realistas tradicionais?
Segundo o realismo estrutural de Kenneth Waltz, sistemas internacionais tendem ao equilíbrio: potências ameaçadas buscam contrabalançar o poder dominante por meio de alianças militares e corrida armamentista. No entanto, o cenário unipolar pós-1991 desafiava essa lógica. Nenhum Estado ou aliança parecia disposto — ou capaz — de confrontar militarmente os EUA.
O soft balancing surge, então, como uma explicação alternativa: em vez de balanceamento duro (hard balancing), Estados recorrem a instrumentos institucionais, normativos e diplomáticos para dificultar ou elevar os custos do uso da força pela potência hegemônica. Esses instrumentos incluem:
● Fortalecimento de organizações multilaterais (ONU, OMC, OEA);
● Uso estratégico do direito internacional;
● Formação de coalizões ad hoc;
● Coordenação diplomática em fóruns globais;
● Contestação normativa da legitimidade das intervenções.
Diferentemente do balanceamento duro, o equilíbrio suave não busca derrotar ou substituir a potência hegemônica, mas constranger sua liberdade de ação, especialmente no campo militar.
Embora o conceito tenha sido inicialmente aplicado à relação entre Estados Unidos, União Europeia, Rússia e China, sua lógica é particularmente adequada para compreender o comportamento histórico da América Latina, uma região estruturalmente incapaz de competir militarmente com Washington, mas altamente ativa no campo diplomático e institucional.
2. A América Latina como sistema unipolar regional
Para compreender o soft balancing latino-americano, é necessário reconhecer que o continente opera, desde o final do século XIX, como um sistema unipolar regional, no qual os Estados Unidos exercem supremacia militar, econômica e política.
A Doutrina Monroe, inicialmente apresentada como defesa da soberania americana contra o colonialismo europeu, rapidamente se transformou em instrumento de legitimação da expansão norte-americana. Ao longo do século XX, essa lógica foi reforçada por políticas como:
● O Corolário Roosevelt (1904), que justificava intervenções preventivas;
● A política do Big Stick;
● As ocupações militares no Caribe e na América Central;
● A instrumentalização da Guerra Fria para conter governos considerados “ameaças ideológicas”.
Nesse contexto, a América Latina experimentou uma sucessão de intervenções diretas e indiretas: golpes apoiados pela CIA, bloqueios econômicos, intervenções militares, apoio a ditaduras e pressões diplomáticas. Exemplos emblemáticos incluem Guatemala (1954), Cuba (1961), República Dominicana (1965), Chile (1973), Nicarágua (anos 1980), Panamá (1989), entre outros.
A ausência de capacidade militar para resistir diretamente a essas intervenções levou os países latino-americanos a desenvolver uma cultura diplomática defensiva, fortemente ancorada no direito internacional, no princípio da não intervenção e na busca por autonomia coletiva.
3. O direito internacional como instrumento de contenção
Um dos pilares históricos do soft balancing latino-americano é o uso estratégico do direito internacional. Desde o século XIX, juristas e diplomatas da região desempenharam papel central na construção de normas destinadas a limitar a intervenção externa.
Doutrinas como a Doutrina Calvo, a Doutrina Drago e a Doutrina Estrada expressam esse esforço. Elas defendiam, respectivamente, a não intervenção em disputas contratuais, a proibição do uso da força para cobrança de dívidas e o respeito à soberania dos Estados independentemente da natureza de seus regimes políticos.
Essas doutrinas não eram apenas formulações jurídicas abstratas, mas instrumentos políticos voltados a constranger a atuação das grandes potências, especialmente dos Estados Unidos e das potências europeias.
No século XX, essa tradição se institucionalizou na atuação latino-americana na ONU, onde países da região frequentemente se posicionaram como defensores do multilateralismo, da solução pacífica de controvérsias e da legalidade internacional.
Esse comportamento se encaixa perfeitamente na lógica do soft balancing: ao reforçar normas e instituições, os Estados latino-americanos buscavam reduzir a margem de manobra unilateral de Washington, ainda que sem capacidade de impedi-la totalmente.
4. Integração regional como estratégia de equilíbrio suave
Outro instrumento central do soft balancing latino-americano foi a integração regional. Desde a criação da CEPAL, nos anos 1950, até iniciativas mais recentes como Mercosul, Unasul, CELAC e ALBA, a integração foi vista como caminho para ampliar a autonomia coletiva da região.
Embora essas iniciativas tenham enfrentado limitações estruturais, conflitos internos e assimetrias econômicas, elas desempenharam papel relevante na construção de espaços políticos relativamente autônomos em relação aos Estados Unidos.
A criação da CELAC, por exemplo, representou uma tentativa explícita de articular um fórum regional sem a presença dos EUA e do Canadá, sinalizando uma estratégia clara de soft balancing institucional.
Mesmo quando não resultam em políticas efetivas de contenção, essas iniciativas elevam os custos diplomáticos da intervenção externa e fortalecem a capacidade de coordenação política regional.
5. O soft balancing na conjuntura pós-Guerra Fria
O fim da Guerra Fria alterou profundamente o contexto estratégico da América Latina. Sem a justificativa anticomunista, as intervenções diretas tornaram-se mais custosas politicamente para os Estados Unidos. Nesse cenário, o soft balancing ganhou novo fôlego.
Durante os anos 2000, governos progressistas na região — como no Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador — intensificaram estratégias de diversificação de parcerias internacionais, aproximando-se da China, da Rússia e da União Europeia. Essa política externa “ativa e altiva”, no caso brasileiro, buscava ampliar o espaço de manobra internacional sem confronto direto com Washington.
A atuação conjunta no âmbito dos BRICS, a defesa de uma reforma do Conselho de Segurança da ONU e a resistência a iniciativas como a ALCA exemplificam estratégias clássicas de equilíbrio suave.
6. Dimensão econômica do soft balancing
No campo econômico, o soft balancing manifesta-se na busca por alternativas ao sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos, como o FMI e o Banco Mundial. A criação do Banco do Sul, o fortalecimento do Banco dos BRICS e o uso de moedas locais em comércio bilateral são exemplos dessa estratégia.
Embora essas iniciativas não tenham substituído o sistema financeiro internacional dominante, elas funcionam como mecanismos de mitigação da dependência e redução da vulnerabilidade externa.
Do ponto de vista social, essas políticas refletem demandas históricas por desenvolvimento autônomo, justiça social e redução das desigualdades estruturais produzidas pela inserção periférica da América Latina na economia global.
7. Limites, contradições e desafios do soft balancing latino-americano
Apesar de sua relevância histórica, o soft balancing latino-americano enfrenta limites significativos. A fragmentação política regional, a instabilidade institucional, a dependência econômica e as elites domésticas alinhadas a interesses externos frequentemente minam estratégias coletivas de contenção.
Além disso, a ascensão de governos alinhados ideologicamente aos Estados Unidos reduz a coesão regional e enfraquece iniciativas multilaterais autônomas.
Ainda assim, o soft balancing permanece como a principal ferramenta disponível para a América Latina enfrentar assimetrias estruturais de poder em um sistema internacional ainda marcado pela desigualdade.
Conclusão: o equilíbrio suave como prática histórica da periferia
Mais do que um conceito acadêmico recente, o soft balancing pode ser entendido como a formalização teórica de práticas históricas desenvolvidas por regiões periféricas diante de potências hegemônicas. Na América Latina, ele expressa uma longa tradição de resistência indireta, criatividade diplomática e uso estratégico das normas internacionais.
Em um mundo cada vez mais multipolar, marcado pela erosão da hegemonia norte-americana, o equilíbrio suave tende a ganhar ainda mais relevância. Para a América Latina, trata-se menos de uma escolha e mais de uma necessidade histórica: equilibrar sem confrontar, resistir sem guerrear, existir politicamente em um sistema que nunca foi plenamente seu.
Linha do Tempo – Soft Balancing da América Latina frente aos EUA
● 1823 – Doutrina Monroe
Os Estados Unidos proclamam a Doutrina Monroe (“a América para os americanos”), inaugurando um sistema unipolar regional. Embora apresentada como defesa contra o colonialismo europeu, torna-se o alicerce da hegemonia norte-americana no continente e o ponto de partida para estratégias latino-americanas de contenção indireta.
● 1868 – Doutrina Calvo
Formulada pelo jurista argentino Carlos Calvo, estabelece que disputas envolvendo estrangeiros devem ser resolvidas nos tribunais nacionais, rejeitando intervenções externas. É um dos primeiros exemplos de soft balancing jurídico, buscando limitar o uso da força por potências.
● 1902 – Doutrina Drago
Proposta pelo chanceler argentino Luis María Drago, afirma que dívidas públicas não justificam intervenção militar. Surge em reação ao bloqueio europeu à Venezuela e consolida a América Latina como produtora ativa de normas internacionais defensivas.
● 1904 – Corolário Roosevelt
Ampliação da Doutrina Monroe, legitimando intervenções preventivas dos EUA. Em resposta, países latino-americanos reforçam o apelo ao multilateralismo e à legalidade internacional — aprofundando estratégias de equilíbrio suave.
● 1945 – Criação da ONU
Países latino-americanos participam ativamente da fundação da ONU, apostando no direito internacional e na diplomacia multilateral como formas de limitar ações unilaterais das grandes potências.
● 1948 – Criação da OEA
Embora influenciada pelos EUA, a Organização dos Estados Americanos torna-se também um espaço de disputa normativa, onde Estados latino-americanos tentam constranger intervenções diretas e indiretas.
● 1954 – Golpe na Guatemala
A intervenção apoiada pelos EUA reforça a percepção regional de vulnerabilidade. A partir desse episódio, intensifica-se o discurso latino-americano em defesa da soberania e da não intervenção nos fóruns internacionais.
● 1961–1962 – Crise dos Mísseis em Cuba
O episódio evidencia os riscos da confrontação direta. Muitos países da região passam a privilegiar estratégias diplomáticas, institucionais e jurídicas como alternativa à militarização — um movimento típico de soft balancing.
● 1970s – Atuação no Movimento dos Não Alinhados
Países latino-americanos ampliam sua presença em fóruns do Sul Global, buscando diluir a hegemonia dos EUA por meio de coalizões amplas e retóricas anticoloniais.
● 1982 – Guerra das Malvinas
O apoio dos EUA ao Reino Unido gera forte frustração regional. O episódio impulsiona críticas à dependência hemisférica e reforça a busca por maior autonomia diplomática e estratégica.
● 1990s – Pós-Guerra Fria
Com o mundo unipolar, o soft balancing torna-se mais visível: uso de instituições multilaterais, fortalecimento do direito internacional e resistência a intervenções “humanitárias” sem mandato da ONU.
● 2005 – Rejeição da ALCA
Brasil, Argentina e outros países sul-americanos lideram a rejeição à Área de Livre Comércio das Américas. Trata-se de um dos exemplos mais claros de soft balancing econômico coletivo contra a liderança dos EUA.
● 2008 – Criação da UNASUL
A União de Nações Sul-Americanas surge como tentativa de coordenação política e de segurança regional sem tutela direta de Washington.
● 2010 – Criação da CELAC
Primeiro fórum que reúne exclusivamente países latino-americanos e caribenhos, sem EUA e Canadá. Representa um marco institucional do equilíbrio suave regional.
● 2010s – Aproximação com China e Rússia
Diversificação de parcerias comerciais, financeiras e diplomáticas funciona como estratégia indireta de contenção da dependência dos EUA.
● 2020s – Retorno da multipolaridade
Com a disputa EUA–China, a América Latina intensifica estratégias pragmáticas de soft balancing, evitando alinhamentos automáticos e buscando maximizar autonomia relativa.
Indicação de leituras:
● Inserção internacional: formação dos conceitos brasileiros por Luiz Amado Cervo
● Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque por Luiz Alberto Moniz Bandeira
● The Origins of Alliances por Stephen M. Walt
Veja mais:
Assista ao filme "Treze dias que abalaram o mundo", 2000. O filme mostra como Estados buscam conter o poder do outro sem guerra direta, usando normas, diplomacia, opinião pública e arranjos políticos, exatamente o núcleo conceitual do soft balancing, especialmente como praticado por potências em contextos de alto risco nuclear. Clique no link e comece a assistir: https://youtu.be/hAJj3zWRM7Q?si=_g9BTLiWx57up9cB
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