Winston Churchill e a Campanha de Gallipoli (1915–1916): Estratégia, Fracasso e Legado



Introdução: A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a busca por uma alternativa ao impasse ocidental


No início da Primeira Guerra Mundial, o conflito europeu rapidamente se transformou em uma terrível guerra de trincheiras ao longo da Frente Ocidental, onde milhões de soldados aliados e alemães tornaram-se presas da artilharia, do lamaçal e das barricadas de arame farpado. À medida que a guerra se estendia em 1914 e 1915, os Estados-maiores aliados procuravam alternativas estratégicas para romper esse impasse e infligir um golpe decisivo aos Poderes Centrais. Uma dessas propostas — talvez a mais ousada em seus objetivos — foi a campanha que se desenrolou na península de Gallipoli, no Império Otomano, entre fevereiro de 1915 e janeiro de 1916.

O estrategista político que mais se associou publicamente a essa campanha foi um relativamente jovem parlamentar britânico chamado Winston Churchill, que, na época, ocupava o cargo de Primeiro Lorde do Almirantado. A campanha de Gallipoli não apenas se tornaria um dos fracassos mais marcantes da guerra, mas também teria profundas implicações para a carreira política de Churchill, moldando sua visão estratégica e seu temperamento para os anos seguintes. 


1. Churchill: Primeiro Lorde do Almirantado e Arquiteto de uma Saída Estratégica

1.1 Quem era Winston Churchill em 1914–1915

Em 1911, Winston Churchill foi nomeado Primeiro Lorde do Almirantado, posição política de enorme influência no governo britânico, responsável pela administração da Royal Navy — a espinha dorsal do poder militar britânico no início do século XX. A Marinha Real era então considerada a arma mais poderosa do Império, vital para a segurança das rotas comerciais e do próprio tecido imperial britânico. 

Churchill, então com pouco mais de quarenta anos, tinha um histórico de envolvimento com assuntos militares e um espírito inovador voltado à estratégia e tecnologia. Em suas memórias e em numerosas correspondências políticas, ele demonstrou desde cedo sua convicção de que a guerra iria além das operações tradicionais e exigiria abordagens ousadas para romper o impasse estagnado no teatro ocidental. 

1.2 A Ideia de Forçar os Dardanelos: Objetivos Estratégicos

A campanha que viria a ser denominada Dardanelos-Gallipoli nasceu da convergência de fatores estratégicos:

1. Isolar e derrotar o Império Otomano – Ao entrar na guerra ao lado dos Poderes Centrais em novembro de 1914, a Turquia ameaçava importantes posições britânicas no Oriente Médio, incluindo o Canal de Suez, uma artéria vital para a comunicação imperial. 

2. Romper o impasse de trincheiras na França e Bélgica – Acreditava-se que um novo teatro de operações poderia desviar recursos inimigos e aliviar a pressão sobre o front ocidental. 

3. Abrir um corredor para a Rússia – Ao capturar os estreitos dos Dardanelos e Constantinopla (Istambul), os Aliados esperavam abrir uma rota marítima segura de abastecimento para a Rússia czarista, cuja luta contra a Alemanha e seus aliados estava desmoronando. 

Churchill foi um dos principais defensores dessa estratégia audaciosa, embora outros membros do governo acreditassem que a ideia deveria ser tratada com cautela. Ainda assim, em janeiro de 1915, o governo britânico autorizou a operação, em parte devido à persistência de Churchill e à crença externa de que a ofensiva poderia virar o jogo da guerra. 


2. Da Navegação à Batalha Terrestre: Como a Campanha Se Desenrolou

2.1 A Fase Naval: Tentar Forçar os Dardanelos

A campanha começou em fevereiro de 1915 com uma ofensiva naval destinada a bombardear as fortificações otomanas e forçar a passagem através dos estreitos de Dardanelos. Tropas anfíbias e minas navais foram empregadas, e, por um momento, parecia que a marinha aliada poderia romper as defesas inimigas.

No entanto, fatores imprevistos rapidamente surgiram. As minas colocadas pelos otomanos mostraram-se mortais, danificando e afundando navios aliados. A resistência turca, sob forte liderança e construída em terreno favorável, demonstrou-se mais tenaz do que muitos analistas aliados esperavam. Embora a marinha estivesse tecnicamente capacitada, a falta de uma força terrestre pronta para aproveitar qualquer vantagem naval rapidamente tornou a operação arriscada e desequilibrada. 

2.2 Os Desembarques em Gallipoli

Com o fracasso da ofensiva puramente naval, o plano mudou para incluir uma campanha terrestre. Tropas de vários contingentes — britânicos, australianos, neozelandeses (o ANZAC Corps), franceses e indianos — foram desembarcadas na península de Gallipoli, em abril de 1915, nas praias conhecidas como Anzac Cove, Helles e Suvla Bay. 

As forças aliadas esperavam uma rápida vitória: que o terreno fosse tomado, que as defesas fossem quebradas e que Constantinopla caísse pouco depois. A realidade foi brutalmente diferente. As tropas desembarcaram sob fogo intenso, enfrentaram terreno difícil e desconhecido, e logo se encontraram presos em uma guerra de trincheiras que ecoava o sangrento impasse da Frente Ocidental na Europa. 

2.3 Falhas Logísticas e de Coordenação

A campanha foi marcada por falhas logísticas — como suprimentos insuficientes, atraso na chegada de reforços e falta de coordenação entre as forças navais e terrestres — que levaram a um agravamento das condições de combate. As defesas turcas, sob comando eficaz e estratégia agressiva, aproveitaram cada recuo aliado, reforçando posições estratégicas ao longo do terreno elevado da península. 

Além disso, a subestimação da capacidade turca de resistência e o difícil relevo geográfico tornaram muitos movimentos de ataque aliados ineficazes ou extremamente custosos em termos de vidas humanas.


3. O Fracasso e a Evacuação: Batalha Perdida, Prejuízo Humano e Militar

3.1 Resultados em Vítimas e Estagnação

A campanha de Gallipoli transformou-se em um dos confrontos mais sangrentos e trágicos da Primeira Guerra Mundial fora da Frente Ocidental. Estima-se que os Aliados sofreram cerca de 250.000 baixas, incluindo mortos, feridos e desaparecidos, enquanto as forças otomanas tiveram perdas de magnitude semelhante.

As tropas ficaram entrincheiradas em posições estáticas por meses, como no fronte europeu, sem conseguir alcançar os objetivos iniciais. O terreno e as doenças também agravam ainda mais as condições: o calor escaldante durante o dia, a falta de água potável e a presença de doenças tropicais tornaram a vida na linha de frente insuportavelmente difícil. 

3.2 A Evacuação e a Finalização da Campanha

Após meses de combates que não avançaram, as forças aliadas foram evacuadas gradualmente entre dezembro de 1915 e janeiro de 1916. A retirada foi uma das partes mais notáveis da campanha, pois ocorreu com poucas perdas durante o processo de retirada sob fogo inimigo — um feito de planejamento meticuloso no fim de uma campanha mal-sucedida. 

Apesar de a evacuação ter sido executada com eficiência relativa, o impacto político e humano do fracasso foi enorme, abrindo uma das páginas mais sombrias da participação britânica e de seus aliados na Primeira Guerra Mundial.


4. As Consequências Políticas e Pessoais para Churchill

4.1 Churchill como "Bode Expiatório" e sua Demissão

Politicamente, a campanha foi um desastre para Churchill. Apesar de o plano original ser consensual em muitos setores do governo, ele foi visto, tanto na imprensa quanto no Parlamento, como o principal responsável pela decisão de atacar os Dardanelos. 

O resultado foi sua demissão do governo em maio de 1915, quando o primeiro ministro Herbert Asquith formou um governo de coalizão e, em negociações com os conservadores, concordou em sacrificar Churchill do cargo de Primeiro Lorde do Almirantado. 

Mesmo depois de transferido para um cargo menor (Chanceler do Ducado de Lancaster), suas tentativas de reiniciar a ofensiva foram infrutíferas, e ele continuou a perder influência política. 

4.2 Serviço Ativo no Exército

Após sua queda do Almirantado, Churchill tomou uma decisão incomum para um político de alto escalão: renunciar ao cargo e juntar-se ao exército como oficial ativo. Ele serviu com a Royal Scots Fusiliers na Frente Ocidental, onde experimentou diretamente a brutalidade das trincheiras e o custo humano da guerra. 

Embora alguns relatos populares exagerem a quantidade de combate que ele viu, muitos historiadores concordam que sua presença no front foi mais simbólica e pessoal do que estrategicamente significativa — uma tentativa de restaurar o respeito e demonstrar solidariedade com os soldados comuns. 


5. Legado de Gallipoli para Churchill e a História Militar

5.1 Reflexões Estratégicas e Lições Aprendidas

Apesar de seu fracasso, Gallipoli teve um impacto profundo na formação de Churchill como estrategista e líder. Ele nunca deixou de defender o valor estratégico da ideia original, mesmo reconhecendo que a execução foi falha. Em sua obra monumental "The World Crisis", Churchill escreveu sobre Gallipoli como uma tentativa ousada que, embora falhada, era um cálculo estratégico legítimo dadas as circunstâncias. 

Alguns historiadores modernos remontam a interpretação desse episódio como um caso de confiança excessiva no poder naval e falta de integração entre esferas militar e terrestre, além de ressaltarem que as operações anfíbias estavam tecnologicamente e logisticamente subdesenvolvidas na época — problemas que só seriam enfrentados com eficácia décadas depois, por exemplo, nos desembarques da Segunda Guerra Mundial. 

5.2 O Custo Humano e o Significado Cultural de Gallipoli

A campanha também deixou um legado duradouro em países como Austrália e Nova Zelândia, onde os desembarques de ANZAC em 25 de abril de 1915 se tornaram um símbolo nacional de sacrifício e identidade. O Dia de ANZAC (Anzac Day) ainda é comemorado anualmente nesses países, lembrando os soldados que lutaram e morreram naquela campanha. 

Para o Império Otomano — e, por extensão, para a futura República da Turquia — Gallipoli foi uma das suas vitórias mais significativas em toda a guerra, conferindo grande prestígio a comandantes como Mustafa Kemal (que mais tarde se tornaria fundador da Turquia moderna).


Conclusão: Por que Gallipoli Importa?

A Campanha de Gallipoli permanece um dos episódios mais estudados e debatidos da Primeira Guerra Mundial. Para Winston Churchill, foi um fracasso que moldou sua trajetória política: ele pagou com seu cargo, serviu no front e voltou mais tarde para ocupar posições de liderança — inclusive como primeiro ministro durante a Segunda Guerra Mundial. Essa experiência amarga ajudou a reforçar sua convicção sobre a importância de liderança resoluta e a integração entre estratégia e execução no campo de batalha. 

Gallipoli importa não apenas como um erro estratégico, mas como um caso de estudo sobre ambição, intervenção militar e responsabilidade política em tempos de guerra. Ao examinar detalhadamente esse episódio, historiadores e estrategistas continuam a extrair lições sobre o delicado equilíbrio entre ousadia e prudência — lições que ultrapassam qualquer conflito específico ou figura histórica.


Linha do Tempo Detalhada – Campanha de Gallipoli


1914:

● Agosto de 1914

* Início da Primeira Guerra Mundial.

* O Reino Unido entra em guerra contra a Alemanha.

* Winston Churchill é Primeiro Lorde do Almirantado, responsável pela Marinha Real britânica.

● Setembro de 1914

* O conflito na Frente Ocidental torna-se rapidamente estático, com trincheiras.

* Churchill começa a defender estratégias “periféricas” para contornar o impasse.

● Outubro de 1914

* O Império Otomano aproxima-se da Alemanha.

* Bombardeios navais otomanos no Mar Negro confirmam sua entrada iminente na guerra.

● Novembro de 1914

* O Império Otomano entra oficialmente na guerra ao lado das Potências Centrais.

* Churchill e outros estrategistas britânicos passam a discutir seriamente a ideia de atacar os Dardanelos.

1915:

● Janeiro de 1915

* Churchill propõe formalmente ao Conselho de Guerra britânico uma ofensiva naval para forçar os Dardanelos.

* Objetivos:

  * Retirar o Império Otomano da guerra

  * Abrir rota marítima para a Rússia

  * Desviar forças alemãs da Frente Ocidental

* A proposta é aprovada com reservas; a operação começa como naval, não terrestre.

● Fevereiro de 1915

*19 de fevereiro: início dos bombardeios navais aliados contra fortificações otomanas nos Dardanelos.

* Resultados iniciais são inconclusivos.

* Subestimação das minas navais turcas e da artilharia costeira.

● Março de 1915

*18 de março: grande ataque naval aliado.

* Três couraçados são afundados por minas.

* A frota recua.

* Conclusão estratégica: a Marinha sozinha não pode tomar os estreitos.

* Decisão tardia de lançar uma invasão terrestre.

● Abril de 1915

* 25 de abril: desembarques anfíbios:

  * ANZAC Cove (australianos e neozelandeses)

  * Cabo Helles (tropas britânicas)

  * Participação francesa em setores menores

* Tropas desembarcam sob fogo intenso.

* Terreno montanhoso favorece os defensores otomanos.

* Mustafa Kemal (futuro Atatürk) ganha destaque na defesa turca.

● Maio–Junho de 1915

* Combates violentos e estagnação.

* Tropas entram em guerra de trincheiras, semelhante à Frente Ocidental.

* Altas taxas de baixas.

* Crescentes críticas à condução da campanha em Londres.

* Churchill começa a perder apoio político.

● Maio de 1915

* Crise política no Reino Unido.

* Formação de um governo de coalizão.

* Churchill é removido do cargo de Primeiro Lorde do Almirantado.

* Assume posição secundária: Chanceler do Ducado de Lancaster.

● Agosto de 1915

* Nova ofensiva aliada:

  * Desembarque na Baía de Suvla

* Má coordenação, atrasos e hesitação dos comandantes.

* Ofensiva fracassa.

* Última tentativa significativa de romper o impasse.

● Setembro–Outubro de 1915

* Torna-se claro que a campanha não terá sucesso.

* Doenças, falta de água e desgaste moral assolam as tropas.

* Churchill defende continuar a campanha, mas é politicamente isolado.


● Novembro de 1915

* Churchill renuncia ao governo.

* Passa a ser tratado como principal responsável político pelo desastre.

* Decide retornar ao serviço militar ativo.


1915–1916:

● Dezembro de 1915


* Início da evacuação aliada de Gallipoli.

* Retirada é extremamente bem executada, com poucas perdas.

● Janeiro de 1916

* Conclusão da evacuação.

* Fim oficial da Campanha de Gallipoli.

* Objetivos estratégicos fracassaram completamente.


Após Gallipoli

1916:

* Churchill serve na Frente Ocidental como oficial do exército britânico.

* Experiência direta das trincheiras aprofunda sua compreensão da guerra industrial.

● 1919–1923

* Churchill retorna gradualmente à política.

* Publica volumes de The World Crisis, nos quais defende Gallipoli como:

  * Uma ideia estratégica válida

  * Um fracasso de execução, não de concepção


Significado Histórico no Longo Prazo

* Para o Reino Unido: um dos maiores fracassos militares da guerra.

* Para ANZAC: nascimento de uma identidade nacional.

* Para a Turquia: grande vitória defensiva e ascensão de Mustafa Kemal.

* Para Churchill:

     * Trauma político

 * Fonte de aprendizado estratégico

  * Influência direta em sua postura firme e cautelosa na Segunda Guerra Mundial


Imagem: 6º Regimento de Fuzileiros Reais Escoceses, Ploegsteert, Bélgica, 1916, da esquerda para a direita: Major Sir Archibald Sinclair, um antigo colega, mais tarde líder do Partido Liberal; Coronel Churchill; Capitão Andrew Dewar Gibb, que mais tarde escreveu "Winston Churchill na Frente", elogiando a liderança de WSC. (Samleighton87, Creative Commons.


Indicação de leituras:

● A Primeira Guerra Mundial: Os 1590 dias que transformaram o mundo por Martin Gilbert

● Winston Churchill: Um vida - Volume I e Volume II por Martin Gilbert

● A Grande Guerra: 1914-1918 por Peter Hart

● Primeira Guerra Mundial: Uma História concisa por Norman Stone

● The World Crisis: 1911-1918 por Winton Churchill 


Para mais pesquisas acerca do assunto, consulte os seguintes sites:

● https://kirkcenter.org/essays/churchill-defends-the-gallipoli-campaign/

● https://www.parliament.uk/about/living-heritage/transformingsociety/private-lives/yourcountry/collections/churchillexhibition/churchill-the-orator/gallipoli/

https://winstonchurchill.org/publications/finest-hour/finest-hour-182/the-mistaken-view-of-churchills-first-world-war-mistakes/

● https://www.worldhistory.org/Gallipoli_Campaign/

https://academic.oup.com/book/39699/chapter-abstract/339709185?redirectedFrom=fulltext&login=false

https://ensina.rtp.pt/artigo/fim-da-batalha-de-gallipoli-na-turquia/

https://winstonchurchill.hillsdale.edu/world-crisis5-gallipoli/


Veja mais em:

https://youtu.be/tbSL9UsNnDk?si=PE7fly29X0nNAaIQ

https://youtu.be/m5TJc42rm3s?si=qyfZyLE9fROCT2z2


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