Análise da canção "Canto de Ossanha" de Vinícius de Moraes e Baden Powell
Desde então, “Canto de Ossanha” permanece atual não apenas por sua beleza formal ou por sua força melódica, mas sobretudo pela densidade de seus significados. Trata-se de uma canção que desafia o ouvinte, desconfiando da palavra fácil, das promessas vazias e das soluções mágicas para os dilemas afetivos. É, antes de tudo, um canto de advertência.
Vinícius de Moraes e Baden Powell: encontro entre poesia e rito
Vinícius de Moraes já era, em meados da década de 1960, uma figura central da cultura brasileira. Poeta formado na tradição modernista, diplomata de carreira e letrista consagrado, ele havia redefinido a canção popular ao aproximá-la da poesia literária sem perder o diálogo com o cotidiano. Contudo, em “Canto de Ossanha”, Vinícius se afasta do lirismo amoroso direto e confessional que marcou tantas de suas composições. Aqui, o amor não é idealizado; ele é perigoso, ambíguo, atravessado por dor e ilusão.
Baden Powell, por sua vez, traz à canção uma musicalidade que dialoga profundamente com ritmos africanos e afro-brasileiros, explorando síncopes, percussões implícitas e uma harmonia tensa, quase hipnótica. Seu violão não acompanha a letra; ele a ritualiza. A música cria um ambiente de trance, evocando o espaço simbólico do terreiro, do canto sagrado, do aviso ancestral transmitido oralmente.
O projeto "Os Afro-Sambas" nasce desse encontro: não como uma simples homenagem ao candomblé, mas como uma tentativa de traduzir musicalmente uma cosmovisão. “Canto de Ossanha” é uma de suas expressões mais acabadas.
Ossanha: o orixá do segredo e do poder oculto
Para compreender plenamente a letra, é indispensável entender quem é Ossanha (ou Ossain) no panteão afro-brasileiro. Ossanha é o orixá das folhas, das ervas, da medicina ritual e do conhecimento secreto. Ele detém o saber que não pode ser revelado totalmente, pois quem o domina compreende os caminhos da cura e da destruição.
Nesse sentido, o “canto de Ossanha” não é inocente. Ele seduz porque carrega poder. Mas esse poder é ambíguo: pode curar ou pode destruir. O adjetivo “traidor”, presente logo nos primeiros versos narrativos da canção, não acusa o orixá em si, mas o encanto que leva o homem a acreditar que pode escapar das consequências de seus próprios desejos.
> “Coitado do homem que cai
> No canto de Ossanha traidor”
O verbo “cair” não é casual. Ele sugere perda de equilíbrio, erro, descuido. Quem cai no canto de Ossanha não está preparado para lidar com o que invoca.
Palavra e ação: a crítica radical à linguagem vazia
A abertura da canção estabelece um dos seus eixos centrais:
> “O homem que diz dou (não dá)
> Porque quem dá mesmo (não diz)”
Aqui, Vinícius constrói uma crítica profunda à dissociação entre palavra e gesto, problema clássico da ética e da filosofia moral. A palavra que promete demais revela, paradoxalmente, sua impotência. Falar de generosidade não é ser generoso; dizer que vai não significa ir; afirmar que é não equivale a existir de fato.
Essa estrutura se repete de modo quase litânico:
> “O homem que diz vou (não vai)”
> “O homem que diz sou (não é)”
> “O homem que diz ‘to (não ‘tá)”
Cada verso desmonta uma certeza verbal. Há aqui uma filosofia do silêncio e da ação, segundo a qual o verdadeiro agir dispensa anúncio. O verbo “dizer” torna-se suspeito: quanto mais se fala, menos se age.
Essa crítica se estende para o campo afetivo. No amor, promessas excessivas, discursos inflamados e juramentos grandiloquentes costumam ocultar insegurança, desejo de manipulação ou medo de entrega real.
O amor como risco e como dor
Um dos versos mais conhecidos da canção afirma:
> “Pergunte pr’o seu Orixá
> O amor só é bom se doer”
Longe de ser uma defesa masoquista do sofrimento, esse trecho expressa uma compreensão trágica do amor. Amar significa expor-se, perder o controle, aceitar a possibilidade da dor. A tentativa de amar sem risco, sem perda ou sem sofrimento transforma o amor em cálculo, em negociação — e, por isso mesmo, em ilusão.
Na visão expressa pela canção, o amor não pode ser resolvido por mandingas, fórmulas mágicas ou estratégias de esquecimento rápido. Ele exige tempo, enfrentamento e consciência.
> “Em conversa de esquecer
> A tristeza de um amor que passou”
Aqui, o eu lírico se recusa a participar de conversas superficiais destinadas apenas a anestesiar a dor. Esquecer não é curar; pular etapas do luto amoroso é se expor a novas quedas.
O refrão como conflito interior
O famoso refrão “Vai, vai, vai (não vou)” explicita um conflito interno. Há uma voz externa — talvez do desejo, talvez do mundo — que ordena: vá. Vá amar, vá sofrer, vá chorar, vá dizer. Mas o eu lírico responde com negação.
Essa negação, contudo, não é covardia. Ela é prudência. O sujeito sabe que não está disposto a aceitar qualquer promessa, qualquer atalho, qualquer encantamento.
Ele só aceita ir se houver algo verdadeiro:
> “Não, eu só vou se for pra ver
> Uma estrela aparecer
> Na manhã de um novo amor”
A estrela simboliza um amor que nasce de forma clara, quase cósmica, e não como remendo emocional. É a imagem da esperança lúcida, não da ilusão.
Estrutura poética e oralidade
Formalmente, a letra se constrói a partir de repetições, paralelismos e negações, recursos típicos tanto da poesia moderna quanto da tradição oral africana e afro-brasileira. Essa estrutura reforça o caráter ritual da canção: ela não avança linearmente, mas gira em torno de um conjunto de ideias centrais, como um mantra reflexivo.
Os verbos — amar, sofrer, chorar, dizer — aparecem em sequência, criando um ciclo. O amor é apresentado não como estado final, mas como processo contínuo, inevitavelmente atravessado por dor e linguagem.
Além disso, a presença de expressões como “Saravá”, “sinhô” e referências diretas aos orixás ancoram a canção em uma tradição cultural específica, sem transformá-la em folclore. Trata-se de uma vivência simbólica, não de um cenário exótico.
A canção como advertência moral
No fundo, “Canto de Ossanha” funciona como uma fábula moral moderna. Não há personagens nomeados, mas há tipos humanos reconhecíveis: o que promete e não cumpre, o que fala mais do que age, o que busca atalhos afetivos.
A advertência é clara: quem tenta manipular o amor por meio de palavras vazias ou forças ocultas acaba se arrependendo.
> “Se é canto de Ossanha não vá
> Que muito vai se arrepender”
Esse arrependimento não vem como punição divina, mas como consequência natural da falta de honestidade consigo mesmo.
Conclusão: uma obra atemporal
“Canto de Ossanha” permanece como uma das mais densas realizações da música popular brasileira porque trata de questões universais: a fragilidade da palavra, o perigo da ilusão, o risco inerente ao amor e a busca por sentido em meio à dor. Vinícius de Moraes e Baden Powell criaram uma obra que ultrapassa gêneros e épocas, fundindo poesia, filosofia e religiosidade em um mesmo gesto artístico.
Ao desconfiar da palavra fácil e reafirmar a dureza — mas também a beleza — do amor verdadeiro, a canção nos lembra que nem todo canto deve ser seguido. Alguns existem apenas para provar nossa lucidez. E resistir a eles, muitas vezes, é o maior ato de sabedoria.
● A seguir, a letra da canção:
O homem que diz dou (não dá)
Porque quem dá mesmo (não diz)
O homem que diz vou (não vai)
Porque quando foi Já não quis
O homem que diz sou (não é)
Porque quem é mesmo é (não sou)
O homem que diz 'to (não 'tá)
Porque ninguém 'tá Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai (não vou)
Vai, vai, vai (não vou)
Vai, vai, vai (não vou)
que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Amigo sinhô Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr'o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Vai vai vai vai (amar)
Vai vai vai vai (sofrer)
Vai vai vai vai (chorar)
Vai vai vai vai (dizer)
eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Vai (amar)
Vai vai vai vai (sofrer)
Vai vai vai vai (chorar)
Vai vai vai vai (dizer)
eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Vai vai vai vai
Vai vai vai vai
Vai vai vai vai
Indicação de leituras:
● O livro de ouro da MPB: a história da nossa música popular de sua origem até hoje por Ricardo Cravo Albin
● Vinícius de Moraes por Ricardo Cravo Albin
Saiba mais acerca de Vinícius de Moraes e Baden Powell clicando nos links abaixo:
https://dicionariompb.com.br/artista/vinicius-de-moraes/
https://dicionariompb.com.br/artista/baden-powell/
Ouça a canção "Canto de Ossanha" clicando no link:
https://youtu.be/z_irYegbDTE?si=yho2X9kedGP_N61q
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