Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era: O santo cívico
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.
Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.
Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!
O santo cívico
Estamos em 1922 e o Brasil sopra cem velas num bolo que ninguém sabe ao certo quem assou, nem com que farinha. Eu, cronista prudente e desavisado, com um pé na Monarquia morta e outro na República que finge estar viva, resolvi ir ao centro do Rio de Janeiro, essa cidade que foi tudo e hoje é quase tudo: colônia obediente, Império cerimonioso e República leniente. Dirigi-me à Rua da Carioca, atraído por um cortejo em honra a Tiradentes, herói de ocasião permanente.
Lá vinha o desfile, sério como missa e barulhento como comício. Crianças vestidas de civismo, autoridades engravatadas de história e populares atentos ao feriado mais do que ao enforcado. Tiradentes, aquele alferes de ideias grandes e bolso pequeno, surgia em discursos inflamados, barbas emprestadas e virtudes ampliadas. Falava-se da Inconfidência Mineira, esse movimento esclarecido de senhores endividados que sonhavam com impostos menores, liberdade abstrata e escravidão bem concreta.
O martírio, narrado com lágrimas oficiais, servia de cimento moral à República. Afinal, o homem foi esquartejado para que hoje o país pudesse descansar numa quarta-feira de abril. Por força de lei, Tiradentes é patrono de tudo: da pátria, das polícias, das ruas tortas e das escolas em ruínas. Há mais Tiradentes no Brasil do que brasileiros conscientes dele.
Convém notar, porém, que a santificação cívica não caiu do céu republicano. Foi obra humana, planejada e utilíssima. Derrubada a Monarquia em 1889, urgia um santo sem coroa, um mártir laico, alguém morto o bastante para não reclamar. Tiradentes serviu como luva histórica: não pediu cargos, não fundou partido e não escreveu memórias.
Portanto, enquanto o cortejo passava e a banda desafinava a pátria, pensei que o Brasil comemora melhor seus mortos do que seus vivos. A independência faz cem anos; a dependência, infelizmente, parece gozar de excelente saúde.
● Imagem: Augusto Malta. Rio de Janeiro, cortejo em homenagem a Tiradentes, Rua da Carioca, 1922. Instituto Moreira Salles
● Clique no link abaixo e ouça a canção "Minha terra tem palmeiras" na voz da cantora Carmen Miranda. A música ilustra a crônica.
https://youtu.be/nZkQgm9iao4?si=KlqnmV-PdUIAdkvx
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Muito obrigado, com apreço.



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