Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era: A cascata, as senhoras e o pudor
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.
Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.
Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!
A cascata, as senhoras e o pudor
Nada melhor do que um passeio junto à natureza. No Rio de Janeiro de 1885 há um lugar caro leitor que este cronista naturalista sente-se bem, a imponente Floresta da Tijuca. Não por acaso, aqueles que podem com seus reversos financeiros contraem chácaras para fugir da intensidade da cidade. Por lá, também nasce o rio Carioca. Esse que nos deu o gentílico que os filhos da Guanabara carregam.
Mas eu tinha um objetivo desta vez, a Cascatinha Taunay. A Cascatinha Taunay é a maior queda d’água da floresta, com trinta e cinco metros de altura. O local foi batizado em homenagem ao pintor francês Nicolas Antoine Taunay, membro da Missão Artística Francesa, que construiu sua residência ali em 1817, e imortalizou a paisagem em diversas obras.
Chegando ao meu destino e, ávido a me banhar nas águas frescas que deslizam sobre as rochas, num instante parei. Afinal, havia duas senhoras paradas em frente à queda d’água vestidas de branco, com toda a indumentária pesada. Eu já tinha largado o pudor de lado, sem camisa e só de ceroulas, me camuflei numa moita.
Não queria assustar as senhoras. Mas, confesso que estava aflito; queria muito sentir a água pelo corpo. Elas demoravam, pareciam extasiadas, estáticas como personagens de uma tela. Imaginei Taunay vendo a cena e sorrindo com ironia: duas musas de branco, um cronista em ceroulas, e a natureza fazendo pouco caso de nossa moral.
Se o pintor ali estivesse, talvez imortalizasse não a queda d’água, mas a queda do decoro. A floresta, senhora de si, seguia verde, indiferente, enquanto a cidade, lá embaixo, fervia de pressa e civilidade fingida. Saí da moita quando, enfim, elas partiram, levando consigo o branco das vestes e deixando em mim a certeza de que, neste Rio, até a natureza ri da nossa compostura. Banhei-me então, nu de convenções, batizado pela água, pelo riso e, sobretudo, pela sensação incômoda de que Machado de Assis, se por ali passasse, certamente acharia tudo isso muito sério para ser levado a sério. Talvez acrescentasse um capítulo, risse de mim, das senhoras, e da cascata, esta eterna, alheia aos homens e suas preocupações.
● Imagem: Marc Ferrez. Rio de Janeiro, Floresta da Tijuca, Cascatinha Taunay, 1885. Instituto Moreira Salles
● Clique no link abaixo e ouça musica "Rio Antigo" tocada pelo grupo do Altamiro Carrilho. A música ilustra a crônica
https://youtu.be/CtJkhUeEqQY?si=YICivGvh0n36cGNp
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