Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era: O Morro ao chão e a feira de pé


Não é raro que, em tardes de lassidão, eu me veja a conversar com fotografias. Sim, leitor, com fotografias. Essas senhoras silenciosas e vaidosas que, embora sem fala, dizem muito mais que muitos homens. E que mais dizem quando são do Rio antigo, essa cidade que já foi menina com trança, senhora com sombrinha e agora desfila, em certos trechos, como viúva de si mesma.
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.

Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.

Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!


O Morro ao chão e a feira de pé

O ano de 1922 amanheceu com pose solene, desses que vestem fraque e exigem aplausos. Cem anos de independência, dizia-se, como se a pátria fosse uma senhora centenária ainda surpresa por estar viva. O Rio de Janeiro, capital desta República que adora reformas súbitas, resolveu comemorar perdendo o juízo — e o Morro do Castelo. Derrubaram-no com discursos cheios de boas intenções: ventilar a cidade, higienizar a paisagem, civilizar o passado. Ventilação esta que, curiosamente, jamais alcançou os gabinetes onde tais ideias nascem abafadas.

No lugar do morro, ergueram-se pavilhões, bandeiras estrangeiras, fachadas elegantes e uma Exposição Internacional que ensinava ao brasileiro como o mundo era avançado — desde que o mundo estivesse disposto a desmontar a própria casa para parecer moderno. O berço esplêndido virou entulho, e o progresso fez pose para fotografia.

Triste e curioso, decidi sondar o humor popular. Onde melhor ouvir o país senão onde ele negocia? Fui à feira da Praça Bandeira. Ali, o Brasil não discursava: pesava tomates. A praça, outrora Largo do Matadouro, sempre teve vocação para sacrifícios; mudou de nome, mas não de destino. Ali se hasteou a primeira bandeira republicana, e ali ainda se ergue, altiva, a resistência cotidiana contra enchentes, promessas e governos.

Na feira, a República cheira a peixe fresco e galinha viva. O feirante não lamenta o Morro do Castelo: lamenta a pouca venda. A dona de casa não discute ventilação urbana: discute o preço do chuchu. A garotada, empurrando carrinhos de madeira, entende de progresso melhor que muito engenheiro — progresso é levar a compra inteira sem perder a roda.

Ali percebi: o morro caiu, mas a cidade ficou em pé. O Brasil comemorava cem anos fingindo que sabia o que fazia, enquanto a feira, sábia e irônica, seguia negociando o essencial. Talvez sejamos independentes apenas ali, entre bananas, sardinhas e um certo ceticismo nacional.


● Imagem: Augusto Malta. Rio de Janeiro, feira na Praça da Bandeira em 1922. Instituto Moreira Salles 

●Clique no link abaixo e ouça musica "Cidade Mulher" na voz do cantor das multidões, Orlando Silva. A música ilustra a crônica.

https://youtu.be/JumGb0B1tWc?si=MEmP_lbz_2pEr6nH


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Muito obrigado, com apreço.

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