Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era: O Morro ao chão e a feira de pé
O Morro ao chão e a feira de pé
O ano de 1922 amanheceu com pose solene, desses que vestem fraque e exigem aplausos. Cem anos de independência, dizia-se, como se a pátria fosse uma senhora centenária ainda surpresa por estar viva. O Rio de Janeiro, capital desta República que adora reformas súbitas, resolveu comemorar perdendo o juízo — e o Morro do Castelo. Derrubaram-no com discursos cheios de boas intenções: ventilar a cidade, higienizar a paisagem, civilizar o passado. Ventilação esta que, curiosamente, jamais alcançou os gabinetes onde tais ideias nascem abafadas.
No lugar do morro, ergueram-se pavilhões, bandeiras estrangeiras, fachadas elegantes e uma Exposição Internacional que ensinava ao brasileiro como o mundo era avançado — desde que o mundo estivesse disposto a desmontar a própria casa para parecer moderno. O berço esplêndido virou entulho, e o progresso fez pose para fotografia.
Triste e curioso, decidi sondar o humor popular. Onde melhor ouvir o país senão onde ele negocia? Fui à feira da Praça Bandeira. Ali, o Brasil não discursava: pesava tomates. A praça, outrora Largo do Matadouro, sempre teve vocação para sacrifícios; mudou de nome, mas não de destino. Ali se hasteou a primeira bandeira republicana, e ali ainda se ergue, altiva, a resistência cotidiana contra enchentes, promessas e governos.
Na feira, a República cheira a peixe fresco e galinha viva. O feirante não lamenta o Morro do Castelo: lamenta a pouca venda. A dona de casa não discute ventilação urbana: discute o preço do chuchu. A garotada, empurrando carrinhos de madeira, entende de progresso melhor que muito engenheiro — progresso é levar a compra inteira sem perder a roda.
Ali percebi: o morro caiu, mas a cidade ficou em pé. O Brasil comemorava cem anos fingindo que sabia o que fazia, enquanto a feira, sábia e irônica, seguia negociando o essencial. Talvez sejamos independentes apenas ali, entre bananas, sardinhas e um certo ceticismo nacional.
● Imagem: Augusto Malta. Rio de Janeiro, feira na Praça da Bandeira em 1922. Instituto Moreira Salles
●Clique no link abaixo e ouça musica "Cidade Mulher" na voz do cantor das multidões, Orlando Silva. A música ilustra a crônica.
https://youtu.be/JumGb0B1tWc?si=MEmP_lbz_2pEr6nH
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