Série crônicas: Cenas cariocas, o Rio como ele era! Darwin, peixes e a Praça da Bandeira


Não é raro que, em tardes de lassidão, eu me veja a conversar com fotografias. Sim, leitor, com fotografias. Essas senhoras silenciosas e vaidosas que, embora sem fala, dizem muito mais que muitos homens. E que mais dizem quando são do Rio antigo, essa cidade que já foi menina com trança, senhora com sombrinha e agora desfila, em certos trechos, como viúva de si mesma.

Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.

Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.

Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!


Darwin, peixes e a Praça da Bandeira

Era o verão escaldante de 1940, desses que derretem não apenas o asfalto, mas também o juízo. Janeiro veio com suas chuvas torrenciais, verdadeiros dilúvios bíblicos, embora sem arca, sem pombas e, infelizmente, sem salvação. Em São Sebastião do Rio de Janeiro, essa capital da República que adora modernidades importadas e despreza o básico doméstico, o carioca convive com enchentes como quem convive com um parente inconveniente: reclama, mas já se habituou.

Chove tanto que a água desce do céu com a convicção de quem pretende ficar. É tanta chuva que até peixe se afoga, fenômeno raríssimo, digno de nota científica. Nesses momentos, confesso, penso em Darwin. Não naquele Darwin de barba venerável apenas, mas no homem que acreditava na adaptação das espécies. Se a teoria fosse aplicada com justiça, o carioca já deveria ter desenvolvido guelras, nadadeiras e talvez escamas, para enfrentar as lagoas repentinas que se formam onde antes havia ruas.

A Praça da Bandeira, por exemplo, deixa de ser praça e se converte em oceano provisório, com direito a correnteza, suspense e algumas tragédias menores. Eu, cronista pouco anfíbio, nem peixe nem sapo, fiquei ali preso, torcendo não pela evolução das espécies, mas para que a água resolvesse escoar, gesto simples que a natureza até tenta, mas a engenharia urbana insiste em sabotar.

E a prefeitura, pergunta o leitor curioso? Nada faz, e aqui não há trocadilho; há diagnóstico. Enquanto a capital se afoga com dignidade aquática, a política, em terra firme e sapato seco, aprova mais uma verba salvadora. Já sabemos seu destino: evaporará ao sol seguinte, sem deixar vestígios, como certas promessas de campanha.

Assim seguimos, entre a chuva e o discurso, esperando o dia em que o progresso chegue antes da água. Até lá, caro leitor, aconselho: guarda-chuva, paciência e, se possível, aulas de natação.


● Imagem: Uriel Malta. Praça da Bandeira, 29/01/1940, Rio de Janeiro (RJ). Arquivo Geral da Cidade Rio de Janeiro.

Clique no link abaixo e ouça musica "Cidade Lagoa" na voz do Moreira da Silva o Kid Moringueira. A música ilustra a crônica.

https://youtu.be/zq7qtVqSqcE?si=MkZnDmvNNN7LA8qk


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Muito obrigado, com apreço.


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