Série crônicas: O Rio como ele era: A bandeira, o vermelho e o silêncio prudente
Este blog — que não pretende ser tratado acadêmico nem almanaque de curiosidades — oferece-lhe, com modéstia e alguma audácia, uma coleção de crônicas breves, todas inspiradas em retratos do outrora. São imagens, mas bem poderiam ser fantasmas. Há nelas uma ironia muda, um suspiro escondido, uma rua que já não é rua, mas memória.
Cada texto é um copo d’água do tempo, servido com duas pedras de sarcasmo e uma rodela de saudade. Há figuras conhecidas e outras anônimas, todas fixadas na eternidade de um instante que já passou. O que ofereço é apenas um olhar torto, talvez melancólico, talvez maroto, sobre aquilo que chamamos de “Rio Antigo” — e que, se olharmos bem, ainda nos espia pelas frestas da modernidade.
Leitor curioso, que tenhas olhos não apenas para o que foi, mas para o que permanece sob o disfarce do presente. Boa leitura!
A bandeira, o vermelho e o silêncio prudente
Veja bem, caro leitor: lá fui eu espiar as comemorações dos cinquenta anos da bandeira nacional, esse pano respeitável que já viu mais governos do que promessas cumpridas. Era dezenove de novembro de 1939 no Rio de Janeiro, e no palanque — enfeitado como bolo de casamento de segunda união — estavam reunidos todos os poderosos desta República claudicante, que manca desde o berço, mas insiste em desfilar de peito estufado.
À frente, como era óbvio e até inevitável, estava ele: Getúlio Vargas, o velho estancieiro, com o ar grave de quem sabe exatamente o que diz, mesmo quando não diz coisa alguma. Ao redor, militares em uniformes de gala — eles adoram isto, o pano, o botão, o brilho; a pátria para eles também se veste. A Rádio Nacional fazia a chamada, ajustavam-se microfones, e o discurso pomposo vinha vindo como trem anunciado.
Foi então, caro leitor, que me ocorreu um impulso revolucionário — desses que nascem mais da língua do que do coração. Pensei comigo: bem que eu podia arrumar um quid pro quo daqueles, desses que entram para a história… ou para a cadeia. Imaginei-me gritando, com voz segura: “Mas de onde vêm o verde e o amarelo?” E eu mesmo responderia, didático e inconveniente: “O verde representa a Casa Real dos Bragança; o amarelo, a dos Habsburgo!” E não pararia aí: “E tem mais! Foi o Debret quem criou a bandeira do Império!” Acrescentaria, com malícia republicana: “Vocês tiraram as referências imperiais, mas não tiveram a decência da originalidade.”
Animado, pensei em arrematar: “E se o nome do país vem do pau-brasil, vermelho como brasa, não deveria a bandeira ser vermelha?” Imagine, caro leitor, a cara de Vargas, o suor militar do Góis Monteiro, o sobressalto do Filinto Müller. Vermelho comunista! Bela confusão se armaria.
Mas pensei melhor. Lembrei-me do Prestes, da Olga, dos outros camaradas e do fracasso recente da Intentona de 35. Engoli o discurso, calei a bandeira e salvei o pescoço. Às vezes, caro leitor, o maior patriotismo é saber ficar em silêncio.
● Imagem: Aristógiton Malta. Comemoração aos 50 anos da Bandeira do Brasil, 19/11/193, Rio de Janeiro. Arquivo Gera lda Cidade do Rio de Janeiro
● Clique no link abaixo e ouça a canção "Minha terra tem palmeiras" na voz da pequena notável Carmen Miranda. A música ilustra a crônica.
https://youtu.be/y6IY76r5rXY?si=D-T-soPI5z0kwHRK
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